Intensidades
Existe um livro da Agatha Christie chamado Noite Sem Fim. Li toda a sua coleção na adolescência. Noite Sem Fim é diferente. Não tem suspense, nem detetive. O assassino é confesso, e passa a história em conversas consigo mesmo. Ele declara: "Existem pessoas que nascem para a Noite Sem Fim." Percebi logo que eu era uma dessas. Que eu daria volteios e volteios para cair nos mesmos pontos, nos mesmos erros. Para ter longas discussões comigo mesma e seguir em círculos viciosos. E ouvir de todos que eu era responsável por não conseguir fazer diferente.
Mas no meio de minhas noites sem fim, existem flores que mudam completamente devido à posição do Sol, e elas sorriem para mim. E enquanto as pinto, eu me modifico. Um dia uma pintura que enche os olhos de alguns de ternura e esperança. No outro dia entrego minha orelha cortada a uma prostituta por quem nutro afeto. Sem orelha, eu modifico. E pinto. Na Noite Sem Fim. Pinto a mim sem orelha. Eu sou as flores que pintei. As tintas. Os pincéis. O sangue. Sou minha cadeira e meus sapatos velhos. Eu e tantos outros seres híbridos, desfragmentados, destituídos de certezas e suscetíveis a revoltosos processos internos que permitem uma visão de mundo única. Mas que dói imensamente e não há cura pra essa dor. Através da Arte eu Resisti. Visitei Infernos, viajei no barco de Caronte, fui tragada por ondas e ventos. E me comuniquei como pude. E pude muito. Além de qualquer fronteira. A Arte daqueles Filhos da Noite Sem Fim é víscera, afeto, contexto, vida e conexão.
Insones*
Pensar na vida de madrugada não precisa ser um ato solitário, precisa? Sem dúvida, nos dias de hoje, é um ato solidário quando incluímos os outres, o planeta e o futuro nos pensamentos. Dizem que de perto ninguém é normal e, de mais perto ainda, a gente se questiona se a palavra normal ainda faz algum sentido! Bora partilhar nossas insanidades e gerar saúde?
Melissa Xakriabá é Atriz, Contadora de histórias, bonequeira, performer e escritora. Carioca, indígena em contexto urbano e mãe solo com maternidade atípica, busca referências entre as diferentes culturas dos povos originários. Como educadora social, foca na educação decolonial e anticapacitista e nas práticas anti-bullying.
* A coluna Insone e o seu conteúdo foram enviados pela autora Melissa Xakriabá e não refletem, necessariamente, a opinião da UMA revista coletiva.
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